Jogos: Yes, nós temos mobile games: estúdios brasileiros conquistam espaço no exterior

Um seleto grupo de estúdios brasileiros está conseguindo abrir espaço no cenário internacional de jogos móveis. Trata-se de uma nova geração de desenvolvedores de games, que surgiu junto com a era dos smartphones, atraída pelo potencial desse novo mercado e por sua facilidade de produção e de distribuição. Dentre os nomes que se destacam estão Aquiris, Behold Studios, Fanatee, Oktagon Games e Tapps Games. Todos já conseguiram emplacar algum título de sucesso mundial e hoje se mantêm basicamente da produção de games. O mais interessante é que cada um chegou a esse ponto a partir de estratégias distintas, desenvolvidas de forma empírica, e apostando em títulos de gêneros diversos. Em comum entre eles há a criatividade nas produções e a ousadia de pensar globalmente, produzindo jogos em várias línguas. MOBILE TIME conversou com representantes desses cinco estúdios, além de outros desenvolvedores promissores e gente da velha guarda para uma série de matérias sobre a indústria brasileira de mobile games que começa a ser publicada hoje.

O exemplo mais recente de sucesso dessa turma é a porto-alegrense Aquiris, com o jogo Horizon Chase (iOS), uma homenagem aos antigos jogos de corrida de carros com gráficos em 16 bits. Lançado há duas semanas para iPad ao preço de US$ 2,99, conseguiu uma façanha inédita para a cena brasileira: ser recomendado pelos editores da App Store norte-americana na categoria de games. A indicação catapultou o jogo para as primeiras posições do ranking dos mais baixados para iPad dentre os títulos pagos.

A Aquiris não obteve essa conquista da noite para o dia. Trata-se do resultado de uma longa caminhada. A empresa começou a operar em 2007 fazendo maquetes eletrônicas interativas para diversas verticais, incluindo empreendimentos imobiliários. A experiência adquirida com modelagem em 3D levou os sócios a testarem suas habilidades na produção de jogos. Primeiro fizeram alguns advergames (jogos para a divulgação de produtos) e depois fecharam um contrato com a Cartoon Network nos EUA, para quem produziu três jogos móveis entre 2012 e 2014: Ben 10: Wrath of Psychobos (Android, iOS), Copa Toon (Android, iOS) e The Great Prank War (Android, iOS). Os bons resultados obtidos com as co-produções com o Cartoon Network e a entrada de um investidor no ano passado deram segurança para a Aquiris decidir alçar seu primeiro voo solo com Horizon Chase. Foram cinco meses de desenvolvimento para a versão para iPad. Em breve acontecerá o lançamento para Android. “Temos qualidade para disputar mundialmente com qualquer outro desenvolvedor no mundo”, avalia Sandro Manfredini, diretor de desenvolvimento de negócios da Aquiris. “E nem faria sentido lançar só para um mercado. O trabalho que teríamos para lançar para um seria o mesmo de lançar para todos”, avalia.

A brasiliense Behold Studios segue a mesma linha de jogos autorais e independentes, com download pago. De 2009 para cá criou dez títulos para Android e iOS que acumulam mais de 2 milhões de downloads. Chama a atenção a criatividade na elaboração dos seus games. The Story of Choices (Android, iOS), por exemplo, é um adventure game em que um mensageiro precisa tomar decisões enquanto trabalha levando mensagens entre dois reis que se odeiam. O jogo oferece múltiplos finais, dependendo do caminho trilhado. Seu maior sucesso até agora, com 1,5 milhão de downloads ao preço de US$ 3 cada, é Knights Pen & Paper (Android, iOS), que simula um jogo de RPG de papel e caneta, com um mestre e seus jogadores. O CEO e fundador da Behold, Saulo Camarotti, explica a opção por jogos com download pago: “O modelo de monetização depende muito do projeto e do público alvo. No nosso caso, com jogos autorais e um público de nicho, é sensato adotar o modelo premium, em que o usuário paga para ter o jogo completo.” E acrescenta: “Sempre pensamos o mercado internacional, não regional. Alguns dos jogos da Behold estão traduzidos para até sete línguas”. O próximo projeto de game móvel é o Chroma Squad, voltado para os amantes de Sentai, aqueles superherois de séries japonesas, tipo Power Rangers e similares.

Tal como a Aquiris, a Behold também não nasceu ontem. Camarotti desenvolve games desde criança e entrou no mercado mobile por volta de 2011, quando notou que se tratava de um mercado novo e ainda com pouca concorrência. “Levamos dois anos para se estabilizar como empresa. Desde 2012 nosso faturamento é inteiramente pago pela venda de jogos”, relata.

Free to play

Os outros expoentes dessa nova geração de estúdios de mobile games apostam na produção de títulos com download gratuito, sustentados por um mix entre vendas in-app e publicidade. Dessa turma, chama a atenção a estratégia da paulista Tapps Games, que lança praticamente um jogo por semana, ou seja, aproximadamente 50 por ano. É praticamente uma fábrica de games. São 45 funcionários, entre programadores, game designers, ilustradores, engenheiros de som, testadores, dentre outros. Vários projetos são desenvolvidos simultaneamente, cada um com uma equipe de seis ou sete pessoas. Entre a concepção e o lançamento de um jogo, a Tapps Games tarda entre dois e três meses. Resultado: são mais de 200 títulos criados até hoje, que acumulam mais de 200 milhões de downloads. Há jogos dos mais variados gêneros, mas o maior sucesso é o My Boo (Android, iOS), uma espécie de tamagotchi repaginado, que acumula 40 milhões de downloads.

“Não é todo jogo que a gente acerta. Alguns não performam, outros compensam. My Boo foi lançado em 2013 e continua sendo atualizado. Tem jogo que logo no lançamento não dá em nada e acaba tendo um ciclo de vida de apenas um mês”, comenta Felipe Watanabe, responsável pela área de marketing da Tapps Games.

Metade da receita da empresa vem de publicidade dentro dos jogos, através da conexão a cerca de 15 redes de publicidade móvel. A outra metade é com vendas in-app. Todos os jogos são lançados em inglês e ganham traduções para outras línguas conforme a demanda, como francês e espanhol. EUA, Inglaterra e Alemanha são os mercados prioritários da empresa, que agora pensa também em entrar na Ásia. Antes de criar games, a Tapps focava em terceirização de software, tendo desenvolvido apps para restaurantes e imobiliárias entre 2010 e 2012.

A Fanatee, por sua vez, aposta em jogos casuais e atemporais, capazes de agradar a um público de todas as idades. A partir da experiência passada de um dos seus fundadores com um website de jogos on-line, a empresa decidiu levar para o celular jogos de palavras. “Era uma oportunidade única que não existia antes: são bilhões de pessoais com um videogame no bolso”, explica Cesar Mufarej, co-fundador da Fanatee. Seus dois maiores sucessos são Letroca (Android, iOS), no qual o usuário precisa formar palavras a partir de um conjunto de letras embaralhadas, e o clássico Stop (Android, iOS), em que se deve lembrar palavras de determinada categoria (animas, filmes etc) que comecem com uma letra sorteada. Os dois games estão disponíveis em diversas línguas e somam juntos mais de 4 milhões de downloads. Ambos são gratuitos e a receita provém de publicidade e vendas in-app.

“Desde o começo pensamos em ser globais. Os jogos não são apenas em português, mas em inglês, espanhol, italiano, francês e alemão”, relata Mufarej. Para atender a essa estratégia, vale até mudar o nome do jogo. Foi o caso do Letroca, que passou a se chamar Letter Zap Classic no exterior. “O nome Letroca é só no Brasil, porque não soa tão agradável em inglês ou alemão”, justifica. Os bancos de palavras usadas nos jogos foram construídos pelos usuários e pela própria empresa, que tem em sua equipe pessoas que falam fluentemente as línguas utilizadas.

Completando a nova geração brasileira de desenvolvedores de games móveis há a carioca Oktagon Games, que se especializou na criação de jogos em 3D, através de uma engine criada internamente. Seu foco está nos usuários conhecidos como “midcore”, algo entre os jogadores casuais e os hardcore. “Midcore é o cara que gosta de jogos, mas não tem tempo para console. A monetização funciona bem com esse grupo”, descreve Ronaldo Cruz, fundador do estúdio. Um dos maiores sucessos para essa audiência é o Clash of Clans, com vasta oferta de itens à venda dentro do jogo. Os títulos da Oktagon seguem a mesma trilha. Seu maior hit até agora é Armies and Ants (Android, iOS, Windows Phone), que acumula quase 1 milhão de downloads. O mais novo título da Oktagon, também produzido com sua engine própria, é o Dungeon Battles (iOS). Para a distribuição, a empresa experimenta parcerias com publishers internacionais. Já testou vários deles, inclusive a Chillingo, responsável pelo lançamento do primeiro Angry Birds, e a japonesa DeNA.

Hoje 95% da receita da Oktagon provêm de vendas in-app e 5%, de publicidade. Já teve um jogador na Coreia do Sul que gastou US$ 2 mil dentro do Armies and Ants. A Oktagon tem entre seus investidores um fundo gerido pela Confrapar que aplicou R$ 2,6 milhões na companhia.

Série

Ao longo dos próximos dias, MOBILE TIME publicará outras matérias sobre a atual cena brasileira de jogos móveis, com a opinião de profissionais que atuaram nesse mercado nos tempos dos games em Java e Brew, um debate sobre os desafios enfrentados na divulgação dos jogos e a apresentação de uma novíssima geração que aposta em títulos com realidade virtual e realidade aumentada.

Horizon Chase, da Aquiris

 

My Boo, da Tapps Games

 

Armies & Ants, da Oktagon

 

Kinghts Pen & Paper, da Behold Studios

 

Letter Zap Classic, da Fanatee

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