Análise: Mais considerações sobre a multa bilionária imposta ao Google

Nesta semana publiquei artigo analisando as implicações da multa bilionária imposta ao Google pela União Europeia. O texto basicamente avaliava quais seriam os efeitos se o Google levasse adiante a ameaça do seu CEO, Sundar Pichai, e mudasse seu modelo de negócios para o Android, que deixaria de ser gratuito para os fabricantes. Quem perderia mais: o próprio Google ou o ecossistema móvel como um todo? Ressaltei a importância do Android para o desenvolvimento desse ecossistema na última década, mas também ponderei que existe vida fora da Google Play, citando como exemplo o caso chinês. Faltou, contudo, abordar uma história brasileira que contribui para a discussão. Explico a seguir.

O Google foi multado pelos europeus em 4,34 bilhões de euros por obrigar os fabricantes a embarcar seus apps nos smartphones produzidos. Mas a verdade é que embarcar um app em um smartphone não é garantia nenhuma de que ele será utilizado. Que o digam os desenvolvedores brasileiros. Durante quase três anos, entre outubro de 2013 e maio de 2016, como parte da política industrial do governo federal, os fabricantes de smartphones no Brasil precisaram embarcar aplicativos nacionais como contrapartida prevista pela Lei do Bem, em troca de incentivo fiscal nos modelos com preço até R$ 1,5 mil. Embora bem intencionada, a medida resultou em poucos efeitos práticos. A maioria dos desenvolvedores dos aplicativos que vieram embarcados não percebeu ganhos expressivos em seus negócios.

Em fevereiro de 2015, Mobile Time fez um levantamento dos aplicativos nacionais mais embarcados pelos fabricantes, em quantidade de modelos de smartphones. Kekanto e Meu Carrinho eram os líderes. Havia na lista dois exemplos futuros de indiscutível sucesso: 99 e iFood, mas ninguém em sã consciência afirmaria que esses dois apps deram certo porque foram beneficiados pela Lei do Bem. Foi mérito dos seus empreendedores, gestores, investidores e da estratégia trilhada por cada um. Confira a lista completa ao fim desse artigo.

Aliás, embarcar apps à força nos smartphones pode ser um tiro pela culatra. Não faltam reclamações de consumidores contra apps que vêm embarcados pelo fabricante ou pela operadora que não lhes interessam, ocupam memória e às vezes nem sequer podem ser desinstalados. Existe até um nome pejorativo em inglês para eles: bloatware.

Isso não significa que o Brasil tenha errado em exigir o embarque de apps como contrapartida à isenção fiscal. À época a iniciativa movimentou o mercado de desenvolvedores de aplicativos, estimulou parcerias com fabricantes, gerou mídia espontânea na imprensa sobre os apps escolhidos etc. Entendo que, de maneira geral, foi positivo para o ecossistema móvel. Mas, como já disse, não significou necessariamente o sucesso para os apps beneficiados.

Talvez a comparação com o que faz o Google não seja lá tão justa, afinal, seus apps não vêm embarcados em alguns modelos Android mas em praticamente todos, no mundo inteiro. É outra escala, outra ordem de grandeza. Contudo, por outro lado, estamos falando de apps de serviços que, em sua maioria, já são um sucesso em suas versões na web. Enfim, fica a reflexão. E confira abaixo a lista dos apps mais embarcados em smartphones nacionais, em quantidade de modelos aparelhos, em fevereiro de 2015, e tire suas próprias conclusões:

Kekanto – 10
Meu carrinho – 9
Grubster – 8
Recomind – 7
99taxis – 6
Cine Mobits – 6
O som dos bichos – 6
Placar UOL – 6
Way Taxi  – 6
Apontador – 5
Boa Lista – 5
Curso de bolso – 5
Dieta & Saúde – 5
iFood – 5
Onde vivem os animais – 5
SaveMe – 5
Taxi Já – 5
UOL Cotações – 5
Guia UOL – 5

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