Entrevista: Claro: as portas estão abertas para parcerias com OTTs

Em Barcelona, durante o Mobile World Congress, CEOs de OTTs famosas, como Netfix e Niantic (criadora do Pokémon Go), subiram ao palco para cortejar as operadoras móveis, em busca de parcerias ao redor do mundo. No Brasil, o diretor de marketing da América Móvil, Márcio Carvalho, deixa claro que as portas estão abertas para negociações, se as propostas fizerem sentido economicamente. “Vivemos em um mundo no qual ninguém é autossuficiente a ponto de desenvolver tudo sozinho” , disse o executivo, em entrevista para Mobile Time. Carvalho falou também sobre a integração entre as empresas do grupo (Claro, Embratel e NET), os planos para lançar este ano serviços para casas conectadas, a parceria com PayPal em pagamentos móveis e a possibilidade de ser a primeira operadora a implementar uma rede 5G no Brasil.

Mobile Time – Qual é a importância dos serviços de valor adicionado em telefonia móvel dentro da operação da Claro hoje?

Márcio Carvalho – São fundamentais e vêm ganhando uma importância cada vez maior. Se considerarmos que o mercado está em franca transformação e caminhando para dados… Há tendência crescente de as pessoas usarem smartphones, com planos de dados, em redes mais velozes, o que abre possibilidade de entrega de conteúdo e de experiência multimídia para o consumidor. Buscamos entregar uma oferta cada vez mais completa de mobilidade e entretenimento para o nosso cliente.

Como os SVAs da Claro podem ser integrados às ofertas e à operação de outras empresas do grupo, como NET e Embratel?

Temos oportunidades boas no grupo. Temos a NET, que é referência em entrega de conteúdo na TV por assinatura e que está evoluindo para que essa entrega aconteça também fora de casa, em dispositivos móveis. Temos a Embratel desenvolvendo aplicações baseadas em nuvem, o que complementa o que estamos fazendo, afinal, vídeo, streaming de música e jogos estão virando cloud. Misturar as habilidades de cada empresa no grupo nos coloca em uma posição privilegiada para criar soluções atraentes para o consumidor final e para o mercado corporativo.

Poderia dar um exemplo de serviço convergente entre as empresas?

O Now. Ele nasceu como serviço de TV sob demanda na plataforma de cabo da NET e virou mutiscreen. Levamos para clientes da Claro TV no satélite e com a oferta do combo multi, na qual misturamos todos esses serviços, o cliente de TV por assinatura pode consumir o conteúdo que quiser, onde estiver, com o dispositivo que tiver. E o smartphone costuma ser o preferido, porque está sempre na mão, sempre junto da pessoa. No combo multi temos benefícios que dobram a velocidade de banda larga em casa com WiFi, e quando está fora de casa tem o dobro da franquia com 4G. A gente vê que o futuro do vídeo é móvel e o futuro do móvel é vídeo. Todos os nossos planos, desde o pré, passando pelo controle e pelo pós, já incluem os serviços Claro Música e o Claro Vídeo. O cliente pode ouvir música ilimitada sem consumir Internet, transformando seu smartphone em um rádio segmentado sem propaganda. E tem toda a programação de mais de 15 mil títulos do Claro Vídeo no smartphone, que é a tela que carregamos no bolso.

No Claro Vídeo também tem tráfego gratuito?

Não. No Claro Vídeo descontamos o tráfego da franquia os dados. Vídeo ainda é muito pesado para isso.

Um ano atrás, a Claro estudava o lançamento de serviços para casas conectadas, aproveitando a carteira de clientes da NET. Esse projeto foi para frente?

Estamos trabalhando nesse conceito de smart home e smart things em geral. Lançamos experimentalmente um relógio para crianças. E trabalhamos com a NET para desenvolver o conceito de casa conectada para monitoramento residencial via smartphone e geração de alarmes quando a porta de entrada for aberta. Caminhamos com a evolução da tecnologia móvel com o advento do 5G, IoT e LTE-M. Teremos muito mais sensores conectados com baixa necessidade de banda e baixo consumo de bateria que permitirão aplicações remotas, abrindo um campo de automação e de produção de informações de monitoramento, big data e inteligência artificial que é propício para as teles explorarem.

Quando lançarão esses serviços para casas conectadas?

Teremos novidades ainda este ano.

Quem vai vender? A NET?

Como é um serviço para casa, faz sentido a gente utilizar a força de comercialização da NET nas residências. Essas coisas se misturam. Nos canais da Claro a gente vende NET e vice-versa. A ideia é cada vez mais vender soluções com serviços fixos e móveis. O mesmo vale para o mercado de empresas. A Embratel vende serviços da Claro. E a Claro aproveita sua capilaridade em pequenas e medias empresas para vender serviços da Embratel quando enxerga oportunidade.

Também se falava um ano atrás em serviços para carros conectados. Isso segue no roadmap?

Seguimos acreditando muito no mercado de montadoras. Temos algumas iniciativas, mas não posso adiantar detalhes. Envolvem desde o monitoramento do veículo, com telemetria, até a venda de serviços de áudio, vídeo e WiFi dentro do automóvel, durante uma viagem. Há muitas oportunidades para trabalharmos no segmento de carros conectados e também gestão de frotas, quando falamos de transporte de cargas.

Que outras áreas são prioritárias em SVAs para a Claro este ano?

Anunciamos a parceira com a Paypal no Claro Pay, uma carteira móvel. O cliente pode usar seu smartphone como forma de pagamento. Isso ainda é bastante incipiente, mas acreditamos que pode nos diferenciar no futuro. Queremos transformar o smartphone em um modo de pagamento universal, um repositório único para seus cartões de crédito. Isso demanda uma série de parcerias que precisarão ser feitas. Já temos parcerias com teatros, cinemas, recargas de celular, dentre outras.

Será possível em algum momento pagar por aproximação com o Claro Pay, usando NFC?

Chegamos a discutir NFC com Paypal, mas achamos que é muito incipiente. Mas é uma tendência para o futuro, se a tecnologia decolar.

Quais os efeitos da crise sobre o mercado de SVAs, na perspectiva da Claro?

A crise tem efeito sobre a economia como um todo e sobre o potencial de compra do brasileiro. Temos que ver a nossa capacidade de equilibrar os efeitos negativos com o lançamento de novos serviços, que sejam alternativas mais baratas de entretenimento etc. Mas, de fato, a economia está longe de estar nos ajudando. E há a própria diminuição da base pré-paga… o bolo está menor. A crise vem e aperta. Mas, conforme o mercado volte a crescer, retomaremos com mais força, porque nossos serviços são altamente relevantes e desejados. As pessoas gastam muito tempo em seus smartphones nas mais diversas atividades e isso gera mais oportunidades para vendermos novos serviços.

Em Barcelona, vimos os CEOs da Netflix e da Niantic, criadora do Pokemon Go, cortejando as operadoras, em busca de parcerias. Interessa para a Claro a construção de alguma oferta conjunta com esses produtos?

Vivemos em um mundo no qual ninguém é autossuficiente a ponto de desenvolver tudo sozinho. Na TV por assinatura isso fica claro: tem uma cadeia  de valor com elementos diferentes, como distribuição, instalação, produção de conteúdo, empacotamento etc. Há muito espaço para fazer parcerias.

Daria para pensar em algo com o Netflix?

No caso de vídeo, estamos em um grupo com a NET. Temos muitas parcerias estabelecidas e capacidade de aumentar nossos serviços. Mas se houver modelo de negócios com proposta de valor interessante… Não dá para fechar porta nenhuma. O mundo está passando por uma transformação. Temos que entender quem é esse consumidor, do que ele precisa e em quais ofertas temos que focar.

Nos EUA estão voltando à moda os planos com dados ilimitados, às vezes relacionados a algum tipo de serviço, como consumo de vídeo. Isso pode aparecer no Brasil também?

Tudo depende da maturidade do mercado, do grau de competição que se está enfrentando e da posição que você está. Às vezes faz sentido para uma operadora e não faz para outra. É complicado falar em ilimitado quando vemos o tamanho do cheque em branco que se está dando. O uso está mudando radicalmente, e é necessário um modelo sustentável, com uma margem compatível com o investimento que se faz… Vejo muitas ofertas “milagrosas” que não duram porque não têm sustentabilidade a longo prazo. Vimos operadora oferecer chamadas ilimitadas no Brasil e depois rever. Nada é ilimitado eternamente por remuneração fixa. A não ser que essa remuneração seja alta e o custo caia ao longo do tempo. Depende também da aplicação e do quão intensiva ela é no uso da rede. O modelo precisa ser sustentável, senão quem não usa paga por quem usa.

Na Índia, uma operadora chamada Jio oferece voz de graça sobre a rede 4G. Podemos prever  que isso chegue a outros mercados emergentes com a adoção de VoLTE?

No futuro pode ser viável. Mas hoje tem um percentual grande da população no Brasil que usa essencialmente voz. Claro que existe a migração para dados, mas voz ainda tem muito valor. Vemos uma tendência de migração de pré para pós, mas ainda temos muito valor em pré e temos que fazer essa transição de forma gradativa. Pode ser que lá na frente faça sentido mas hoje não enxergamos espaço para isso. É menos uma questão de coragem e mais de encontrar um modelo de negócios que se sustente, que seja atraente para o consumidor e que seja capaz de movimentar o motor economia, senão você não consegue mais investir e acaba limitando a qualidade.

Na Argentina, no ano passado, a Claro decidiu cortar todos os parceiros de serviços de valor adicionado off portal e manteve apenas white label. Existe alguma possibilidade de essa política ser trazida para o Brasil? Por quê?

Que eu saiba não. Pelo contrário: estamos procurando novos parceiros de SVAs, mas sempre com preocupação de fazer ofertas de valor e vender para quem quer comprar o serviço, senão vira um monte de reclamação e falta transparência, do que queremos distância. Nosso objetivo é trabalhar de forma construtiva com os parceiros, entregando soluções de valor para o consumidor escolher quais serviços quer contratar.

A Claro tradicionalmente é a pioneira na evolução das redes móveis no Brasil. Foi a primeira a lançar o 3G no Brasil, em 2007. Depois a primeira com o 4G. Podemos esperar que a Claro será a primeira também no 5G?

E no 4,5 G já fomos os primeiros também! É um compromisso que a gente tem. A Claro está no Brasil há muitos anos. Trabalhamos para oferecer uma experiência de primeiro mundo. Usamos tecnologia de ponta. Trazemos para o Brasil o que há de mais moderno no mundo. Vamos seguir com esse compromisso de pioneirismo e inovação e tudo o que de melhor a tecnologia global estiver produzindo.

Entrevista: Claro: as portas estão abertas para parcerias com OTTs