Transporte de passageiros: Aplicativos de táxi para mulheres buscam espaço no mercado

A competição no mercado de corridas de automóveis está ficando anda mais acirrada nas grandes cidades com a chegada de players de nicho, como FemiTaxi e Venuxx, especializados em motoristas e passageiras mulheres.

No FemiTaxi, embora homens possam acompanhar as corridas, apenas mulheres podem se cadastrar no app como motoristas ou passageiras. E assim como os rivais 99 e Easy, oferece 30% de desconto aos passageiros – porém, é calculado a partir do valor do taxímetro.

Em conversa com o MOBILE TIME, o fundador da plataforma, Charles-Henry Calfat Salem, revelou que 115 motoristas paulistanas já estão cadastradas no app. Após estrear na capital paulista, o intuito da empresa é expandir para Belo Horizonte e Rio de Janeiro.

Outro app com o mesmo propósito é o Venuxx. Destinado a carros particulares, tem seu lançamento marcado para janeiro, está atualmente em fase de testes internos e de captação de motoristas por meio de seu site. Diferencia-se na plataforma o fato de não permitir homens de maneira alguma – nem como acompanhante – e de ter um botão de emergência para passageiras e motoristas. Venuxx pretende trabalhar a segurança para os dois lados na corrida, empoderar a mulher e dar uma experiência diferente para a usuária.

“A estratégia do marketing da Uber é de massificação. Mas vamos entrar para pegar alguns nichos de mercado que eles não pegam”, disse Diogo Gomes, CEO da start-up. “A ideia é transformar o transporte em uma experiência para o usuário.  Tem motoristas nossas que trabalham na Mary Kay e conseguem agendar para visitar o passageiro um outro dia e vender cosméticos”.

Em operação há três semanas, a plataforma já começa a ter suas primeiras estórias. É o caso da corrida feita pela passageira Bruna Ferreira com a motorista Maria Helena. A passageira teve experiências ruins com taxistas e motoristas da Uber, sendo que em suas últimas duas corridas um motorista que veio buscá-la não era o mesmo do app e agiu de forma suspeita – levando-a próxima de uma favela na Zona Sul de SP –  e o outro condutor aparentava estar sob efeito de drogas ilícitas. “Já peguei táxi de rua, 99, Easy, Uber, BlaBlaBlaCar. O melhor foi o FemiTaxi”, diz Ferreira. “O tratamento e o relacionamento são diferentes. A motorista liga, se apresenta e diz em quanto tempo vai te buscar. E a segurança foi fantástica, sem correr, o tempo e o preço foram cumpridos”, relata. “Com o 99 e a Easy, os motoristas reclamam muito da tarifa (desconto de 30%). Já tive briga por tarifa com o motorista dentro do carro. Passei por assédio com taxista e recentemente por carro clonado (ou login roubado) e motorista alterado na Uber. Procurei para denunciar, mas eles não responderam”, completa.

Para Maria Helena, a motorista que fez a corrida com Bruna Ferreira, a reclamação é referente às receitas com suas corridas. Ela acredita que o faturamento reduziu depois de a prefeitura paulistana autorizar a circulação de serviços de transporte individual com carro compartilhados. Em especial, depois que os aplicativos de táxi 99 e Easy começaram a trabalhar com veículos comuns – além dos táxis – nos serviços Easy Go e 99 Pop. Os novos produtos causaram a revolta dos taxistas, que procuravam por uma nova opção.

“Eu estou dando prioridade para o FemiTaxi. Teve dia que fiz mais corrida no FemiTaxi do que no 99: quatro no feminino e duas no 99. Estou deixando o Easy desligado”, disse a condutora, que fez dez corridas pelo novo app no total. “Ainda não dá para ficar com a FemiTaxi o dia inteiro. Mas a ideia é migrar de vez com o FemiTaxi”.

Movimentando o mercado

A entrada dos novos players no segmento de corridas individuais deve mexer com a estratégia das empresas que lideram o setor. Para Calfat Salem, a experiência da Uber está em queda pela “falta de qualidade” e isso vai voltar os olhos para as plataformas que entregarem a melhor experiência para os usuários.

Outro motivo que pode estar refletindo na queda de qualidade da Uber é a redução de faturamento. Em conversas por grupos de WhatsApp que este noticiário teve acesso, os motoristas da Uber reclamam que após a agressiva expansão da empresa – depois da aprovação do governo e promoção de R$ 6 do Uber Pool – as receitas caíram entre 45% e 50%. Em um dos casos, um motorista revelou que em um mês o valor que recebia com as corridas passou de R$ 900 para R$ 450.

Por sua vez, Gomes, da Venuxx, acredita que além da experiência do usuário, parcerias com outras empresas podem ajudar a alavancar sua plataforma. Ele planeja colocar aulas online de direção defensiva e já fechou uma parceria com o site Beleza na Net para dar descontos às motoristas, assim que a plataforma entrar no ar. Além disso, ele planeja entrar em mercados no interior de São Paulo, onde os rivais Uber e Cabify ainda não entraram, e pretende posicionar sua plataforma como mais barata que o táxi, mas um pouco mais custosa que seus competidores diretos.

Easy

As empresas dos aplicativos Easy, 99 e Uber foram procuradas por Mobile Time para responder sobre a nova frente de aplicativos que surge no mercado. Além de outros problemas relatados durante as entrevistas, como recuo das receitas dos motoristas e reclamações de passageiros com falhas de segurança, discussões com motoristas e queda na qualidade do serviço prestado pelos condutores.

O CEO da Easy no Brasil, Fernando Matias, respondeu por e-mail que não tem intenção de criar atendimento por gênero, pois a base feminina da frota é de apenas 2%, muito pequena em comparação a quantidade de passageiras do sexo feminino, que corresponde a 50% das corridas. Além disso, pode ser visto como discriminatório e também tornar as motoristas alvos de assaltantes. Ressaltou ainda que os motoristas seguem as regras do programa de governança da plataforma e qualquer reclamação é tratada com prioridade, podendo gerar a expulsão do motorista que tratar mal o passageiro.

Questionado se pretende tirar o desconto de 30% ou o Easy Go de circulação, Matias disse que não. Em sua visão, os dois serviços continuam crescendo e tem suma importância no transporte individual de São Paulo. Além disso, o motorista de táxi possui oportunidades de crescimento com a redução de tarifas e pode negar as corridas. “Com mais usuários e mais recorrência, quem sai ganhando é o motorista, que consegue ocupar seu tempo ocioso e, consequentemente, aumentar a receita”, disse o CEO. “Nós damos a opção de os motoristas participarem e não há qualquer tipo de penalização caso ele não participe”.

99

Em contrapartida, a 99 respondeu que a opção com corridas para mulheres e crianças, Motorista Mulher, existe em seu aplicativo desde 17 de outubro. A intenção é expandir isso para as 400 cidades onde a plataforma atua. Por dia, a 99 recebe em torno de 500 chamadas de passageiras que querem utilizar o serviço. E, assim como seu competidor Easy, a 99 rechaça a ideia de terminar com a tarifa reduzida de 30% ou com o 99 Pop.

“São soluções diferenciadas, o táxi oferece maior velocidade, porque tem acesso exclusivo aos corredores de ônibus, e o Pop é mais barato. Há espaço para os dois”, revela trecho da nota. “O taxista não é obrigado a aceitar as corridas, que têm um preço igual ou menor do que outros serviços baseados em motoristas particulares. Ele pode pegar o triplo de corridas e fazer o dobro de dinheiro no mesmo período trabalhado”.

Uber

Sobre casos de assédio cometidos por motoristas, a Uber respondeu: “Atitudes como essa não condizem com o que esperamos de nossos parceiros e violam os termos de uso da plataforma. Nós queremos que nossos usuários sintam-se seguros e não toleramos qualquer tipo de assédio ou violência. Em casos mais sérios é importante que a vítima reporte o acontecimento para as autoridades policiais, que são competentes para investigar situações como essa e tomar todas as medidas cabíveis. Além disso, é importante comunicar eventual ocorrência como essa à Uber. É possível reportar o acontecimento pelo próprio aplicativo. Os parceiros que cometem qualquer tipo de violência são automaticamente desconectados da plataforma.”

A Uber não separa o seu serviço entre motoristas homens e mulheres, procurando oferecer segurança para todos os passageiros. Entre as medidas que garantem essa segurança, a empresa lista a avaliação mútua de 1 a 5 estrelas (motoristas com média abaixo de 4,6 são excluídos); a exigência de que os motoristas comprovem não ter antecedentes criminais; e a possibilidade de compartilhamento da localização para amigos e familiares durante o trajeto.

Sobre redução do faturamento dos motoristas nos últimos meses, a empresa respondeu, através da sua assessoria de imprensa, o seguinte: “É importante frisar que não é a Uber que contrata motoristas, mas sim os motoristas que contratam a Uber para utilizar o aplicativo para angariar / captar clientes e prestar serviço de transporte individual privado. Eles têm total flexibilidade e independência para fazer seus horários, conectando-se com a frequência que bem entenderem. Essa flexibilidade é um dos fatores mais apontados como o maior benefício de ser um motorista parceiro Uber. Os próprios motoristas parceiros optam pela utilização da plataforma em busca de liberdade e independência no seu dia-a-dia, em oposição a uma relação de emprego na qual há subordinação e controle. Caso o Motorista Parceiro não queira realizar viagens, pode apenas manter o aplicativo desligado, sem necessidade de pedir autorização e sem receber qualquer punição se e quando o fizer. A relação com a plataforma é não-exclusiva, por isso os motoristas parceiros podem prestar o serviço de transporte usando ou não a plataforma. Não existem custos extras para manter o contrato com a Uber – quando o parceiro precisa utilizar a plataforma, ele paga de 10% a 30% por taxa de uso do software.”

Por fim, a Uber ressalta que seu número de usuários em São Paulo cresceu 746% entre dezembro de 2015 e setembro de 2016, e que agora tem no Brasil 50 mil parceiros cadastrados e mais de 4 milhões de usuários ativos. Vale lembrar também que de acordo com a última edição da pesquisa Panorama Mobile Time/Opinion Box sobre comércio móvel no Brasil a Uber aparece como serviço preferido de 66% dos internautas brasileiros com smartphone que declaram pedir corridas de automóvel ou táxi através de app.

 

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