Entrevista: Napster estuda incluir podcasts em seu catálogo na América Latina em 2017

Em streaming de música, tamanho não é documento. Todos os concorrentes possuem algumas dezenas de milhões de faixas em seus catálogos. A diferença está em como essa enorme biblioteca musical é organizada e disponibilizada ao usuário, argumenta Tiago Ramazzini, vice-presidente e responsável pelas operações no Brasil e restante da América Latina da Rhapsody, dona do Napster, serviço que tem hoje 3,4 milhões de assinantes no mundo. Em entrevista para Mobile Time, o executivo falou sobre parcerias com teles, competição com Apple e Google, e os efeitos da crise econômica brasileira sobre o seu negócio, além de revelar que estuda trazer podcasts e outros conteúdos de áudio não-musicais para o seu catálogo em 2017.

Mobile Time – Alguns anos atrás, quando sugiram os primeiros serviços de streaming de música, se discutia que era preciso mudar o comportamento do usuário brasileiro. Em vez de ter a música, ainda que em formato digital, ele passaria a acessá-la. É uma troca de posse por acesso. Na sua opinião, já superamos esse desafio?

Tiago Ramazzini – Eu acho que já passou um pouco esse desafio. Lembro dessa discussão muitos anos atrás, ainda no Sonora. A questão de tangibilizar a compra era muito importante. Na assinatura do Sonora a gente entregava músicas em MP3 grátis para o usuário, que era uma maneira de ele ter a música mesmo que assinatura acabasse. Mas isso vem mudando rapidamente. As pessoas se acostumaram com a ideia de aluguel, de assinatura. O mais importante não é ter a posse, mas o acesso a grandes sites de música, com curadoria, classsificação, redes socais e outras ferramentas.

Concorda que há um componente geracional nesse comportamento? Pessoas mais velhas teriam maior dificuldade de abrir mão desse conceito de posse?

Concordo 100% que existe essa questão geracional. Tenho filhas de 5 e 7 anos. Para elas é muito fácil. Já nascem sabendo clicar no lugar certo. Meu pai tem 74 e não é um cara digital, por mais que a gente tente. É difícil até explicar pra ele o que eu faço em uma empresa 100% digital.

No Brasil o Napster tem a Vivo como parceira para a venda do seu serviço. Quais as vantagens e desvantagens de se aliar a uma operadora móvel? Pergunto isso porque alguns dos seus concorrentes optaram por esse caminho e outros, não.

Nosso foco é ter parcerias com grandes empresas de telecom, como a Vivo no Brasil e a Movistar em mais 11 países da América Latina. A grande vantagem é a carteira de clientes. A Telefônica tem mais de 300 milhões de clientes na América Latina. É uma supervantagem poder oferecer nosso serviço a eles. Temos o acesso direto e também o meio de pagamento, que é a fatura do telefone, o que facilita. Mas não queremos nos limitar a telecom, mas buscar outros parceiros como carteiras de clientes e visibilidade grande para nos ajudar com marketing e divulgação do nosso serviço.

E tem alguma desvantagem?

Não chamaria de desvantagem, porque é uma escolha nossa trabalhar com teles para atingir os objetivos de volume que temos, mas quando nos tornamos parceiros de uma empresa que é infinitamente maior que a gente, precisamos ter flexibilidade e aceitar muita coisa para manter a parceria. Posso dizer que no nosso caso isso nos ajudou a melhorarmos como empresa. Somos experts em música, mas toda a comunicação com os clientes passa por uma gestão com a Telefônica, porque os clientes são dela e a Telefônica precisa ter a garantia de que o serviço é prestado com a melhor qualidade possível.

É uma estratégia global da companhia buscar alianças com teles?

É uma estratégia global. Claro que tentamos fazer o sabor local em cada região. Mas também temos o billing das lojas de aplicativos. Porém, a oferta é sempre um pouco mais cara que pela operadora. Aqui no Brasil é R$ 17,90/mês na loja e R$ 14,90/mês na Vivo.

Quais são as teles parceiras do Napster na Europa?

Na Europa temos a Telefônica, a O2 e a SFR também. Nos EUA lançamos parceria com a Sprint. Devemos ter 11 ou 12 operadoras parceiras no mundo.

O fato de Apple e Google, que são os criadores dos dois principais sistemas operacionais móveis, terem também seus próprios serviços de streaming de música é preocupante para os players independentes? Por quê?

Eles não dão nenhum benefício para si mesmos, nem prejudicam ou dificultam os nossos serviços. Existem políticas muito claras nas duas lojas e a gente as segue. Não vemos nenhum problema quanto a isso. Mas eles são muito grandes e usam a sua força para beneficiar seu serviço, o que é normal e qualquer um faria. Na América Latina, eles não são meu grande concorrente, embora eu tenha muito respeito por eles. Mas vejo outros nomes despontando nessa região, mais do que Apple e Google.

Lançamentos exclusivos são uma forma de diferenciação para os serviços de música?

Qualquer player diz que tem 30 milhões de músicas. Todo mundo tem a mesma quantidade, logo, isso é irrelevante. Mas a maneira como são apresentadas, a criação de playlists para determinadas ocasiões e gêneros, isto é um diferencial. Nós renovamos isso o tempo todo. E em cada mercado é preciso direcionar para seu conteúdo local. O Napster é diferente em cada país. Na argentina a gente direciona para os artistas argentinos.

Mas há conteúdo exclusivo em uma única plataforma? Faz sentido trabalhar isso com artistas e gravadoras?

Sob o ponto de vista de marketing é excelente. Ter qualquer grande nome com exclusividade por duas semanas é ótimo. Mas isso está diminuindo, acho que por causa dos artistas e das gravadores. Eles querem estar disponíveis em todas as plataformas. A gente não tem costume de pagar pela exclusividade do artista.

O que acha da inclusão de conteúdo em aúdio que não seja música, como podcasts?

Temos isso em alguns mercados na Europa e sei que é um conteúdo muito acessado. Estamos avaliando trazer para a América Latina. Esperamos tomar essa decisão no começo do ano que vem.

Qual é hoje a base de usuários do Napster na América Latina e no Brasil em particular?

Não abrimos números regionais. Temos 3,4 milhões de pagantes no mundo. Não temos serviço grátis, só premium. É uma decisão da empresa: queremos nos diferenciar sendo 100% premium. Publicidade nunca foi uma fonte de receita.

Mesmo sem abrir números, poderia dizer se o Brasil está entre os seus maiores mercados?

O Brasil é um dos mais importantes, está na terceira ou quarta posição. O campeão é Europa e depois EUA.

Como a crise econômica tem afetado seu negócio? Alguns serviços digitais de entretenimento estão se beneficiando dela, como Netflix.

Para a gente teve um efeito negativo. Sentimos uma diminuição de vendas. No caso do Netflix a pessoa cancela o cabo e assina o Netflix para poupar dinheiro. Na música não. Mas o que está havendo é uma desaceleração do crescimento. Esperávamos crescer mais do que crescemos.

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